O Morey-Saint-Denis – Quand les Crais Rencontrent les Bras
Se o Bourgogne “Les Emolissières” é a porta de entrada do domaine, o Morey-Saint-Denis village é onde a conversa começa de verdade. É aqui que o terroir de Morey se apresenta com clareza e autoridade, com a sua identidade inconfundível a meio caminho entre a potência de Gevrey-Chambertin e a finesse sedutora de Chambolle-Musigny, e com os solos calcários e argilo-calcários do período Jurássico que constroem vinhos de estrutura e comprimento de boca notáveis.
O nome da cuvée diz tudo: Quand les Crais Rencontrent les Bras — Quando Les Crais Encontram Les Bras. Dois lieu-dits distintos dentro do território de Morey-Saint-Denis, cada um com sua própria exposição e composição de solo, que Didier Amiot decide reunir numa única cuvée. Não é um assemblage de conveniência, é um assemblage de intenção, onde as especificidades de cada parcela se completam e o resultado é maior do que a soma das partes.
2023 foi uma safra de contrastes acentuados na Borgonha. O ciclo vegetativo foi instável até abril, seguido de um verão marcado por quatro ondas de calor que garantiram excelente saúde das videiras, mas também por chuvas irregulares e localizadas que criaram maturações heterogêneas de parcela para parcela. Na Côte de Nuits em particular, foi necessária uma triagem rigorosa durante a colheita para eliminar bagas rosadas, botrytis e cachos com maturação irregular. O ano exigiu atenção e decisões precisas e recompensou quem as tomou. Nas vinhas onde foi feito um trabalho consistente de controle de rendimentos ao longo de todo o ciclo vegetativo, as uvas amadureceram bem, ganhando grau e concentração nos últimos dias de sol de setembro.
Na adega, o rigor habitual do domaine: colheita manual, triagem em mesa vibratória, desengace de 70 a 100% conforme a parcela, maceração a frio de 5 a 7 dias, fermentação com leveduras indígenas durante cerca de 10 dias com controle de temperaturas, seguida de envelhecimento em tonéis de carvalho francês de 228 litros durante 15 a 18 meses. As trasfegagens e o engarrafamento são realizados em função do calendário lunar.
Na taça, as uvas da safra 2023 na Côte de Nuits se traduzem em vinhos de cor intensa, estrutura sedosa sustentada por taninos finos e aromas generosos de frutas vermelhas e negras bem amadurecidas, com acidez preservada pelo calor de setembro que garante frescor e potencial de guarda. Na expressão clássica de Didier Amiot, a cor é rubi de grande limpidez, nariz de frutas vermelhas pequenas, como cereja e framboesa, entrelaçadas com notas sutis de violeta e uma boca onde o equilíbrio entre elegância, acidez e taninos é notável. Um vinho de terroir, de autor e de safra — os três ao mesmo tempo.